Quinta, 01 de Outubro de 2020
83996891484
Cultura Boas Lembranças

FICA MAL COMIGO QUEM NÃO SABE DÁ.

Era bonito de ouvir as lavadeiras cantar.

06/08/2020 08h29 Atualizada há 2 meses
530
Por: Redação Fonte: João Duarte
FICA MAL COMIGO QUEM NÃO SABE DÁ.
Meu relógio era o sol ou o canto da cigarra, as vezes o estômago quando pedia alguma coisa pra comer.
E agora chegou a vez dele se manifestar, quando passava uma água no rosto já pensando em comer a cigarra cantou, hoje eu não me adiantei estava em perfeita sintonia com a natureza.
Subi o barranco do rio peguei minha vasilha com comida sentei e agradeci ao nosso bom Deus.
Meu Deus que comida boa, obrigado pai por me oferecer tamanha felicidade de ter saúde e uma refeição tão boa pra me alimentar.
Depois de agradecer ao nosso bom Deus comi toda.
peguei um pedaço de rapadura uma moringa de barro com água fria e bebi.
A moringa já tinha lá na roça, essa eu nunca levava pra casa,
Fiz um travesseiro com um monte de terra forrei com folhas de momonas e deitei,
Tava cansado.
tinha conseguido fazer doze leirões de ramas seis de batatas branca e seis da roxa, em poucos minutos adormeci, a sombra do cajueiro ficava na beira do rio era muito fresca, meu pai sempre dormia lá, ele gostava de levar uma rede e guardava na casa da sua irmã que morava não muito longe dali.
Depois de uma hora acordei.
Peguei meu chinelo calsei. cavei uma cova no chão enterrei a enxada e a moringa olhei pra cima e vi a vara de anzol escondido nas galhas do cajueiro peguei e fui pro poço pescar.
A tarde era mesmo do pescador em menos de um hora já tinha pescado seis trairas dois piau e dois mandins, os mandins eu com certeza iria almoçar amanhã, eu gosto muito de peixes gordos e o mandin e pura graxa.
Botei os peixes no bisaco joguei a tiracolo e fui pra casa, no caminho passei na casa da tia Emília dei duas trairas pra ela. Ela me deu um pedaço de queijo e outro de rapadura e segui o caminho pra casa.
Vai com Deus meu sobrinho;.
-O uvi ela me recomendar.
Sorri levemente e só no meu coração falei;
Fica com Deus tia.
Próximo de casa passava um riacho com uma lâmina dágua que vinha do vertedouro do açude, limpinha chega era prateada.
O povo tinha muito cuidado com aquela água pois nem sempre o dono do açude deixava passar.
Pensei em limpar os peixes mas não tinha uma vasilha pra me pegar a água e dentro do filete d'água eu ia sujar.
Não limpei, deixei pra fazer isso em casa, aquela água era muito preciosa.
Mãe chamou meu irmão e o encarregou de cuidar do pescado.
Pai não estava havia saído pra suas caçadas de peles, além da barbearia as peles de gatos mirins, mourisco e maracaja teus e raposa e outros mais que os compradores encomendasce fazia parte da renda familiar.
No sertão bruto a natureza era a salvação, naquele tempo a caça era liberada.
era um comércio como outros qualquer.
Os dias eram longos sem roçado pra cuidar pois era fora da estação de chuvas o trabalho era escasso.
Eu com minhalma inquieta não ficava em casa o mato era meu lugar, era meio parecido com meu pai.
A noite passou, no dia seguinte logo cedo pai chegou.
Em seguida lá vai eu pro mato onde gostava de ficar.
Dormir a tarde debaixo de uma árvore nareia dum riacho é um alívio pra alma, e eu amava fazer isso.
Nesse dia passei no açude e ouvi as mulheres cantando enquanto lavavam roupas.
Parei e fiquei ouvindo elas cantarolar até cantei baixinho o canto de São Serafim que dizia assim;
SÃO SERAFIM. TETEU. as outras respondia o refrão.
SÃO SERAFIM...TETEU.
TÁ DENTRO DO ARMARIM...TETEU.
AS SUAS LAVADEIRAS FAZ ASSIM ASSIM... ASSIM...TETEU.
Quando chegava a parte do ASSIIM..ASSIM todas esfregavam a roupa na pedra.
O dia passava nessa cantoria, cantavam sambalelê e tantas outras como TENGO TENGO LOURO. que era um canto triste de uma fábula dum príncipe encantado que dizia assim;
NÃO ME MANDE EMBORA NÃO. MEU TENGO TENGO LOURO, SOU A PRICESA DOS PÁSSAROS,. DOS PÁSSAROS CARINHOSO,.
MEU TENGO TENGO LOURO QUE VIM TE VISITAR.
Essa fábula de encantamento eu um dia vou contar.
Era bonito de ouvir as lavadeiras cantar.
Quando peguei o caminho encontrei com Tamba.
Tamba era filho de uma das lavadeiras.
Ele olhou pra me é falou;
Joãozinho não posso me atrapalhar vou comprar um quilo de toucinho um barra de sabão e trazer pra mãe lavar as roupas, mas antes vou botar o toucinho no feijão e trazer o sabão pra cá.
Voltar correndo pra não deixar o feijão queima.
Era uma tarefa simples mas Tamba era meio atabalhoado assim como o nome dele.
Eu brinquei com Tamba e falei;
-Pra você não esquecer Tamba, vai falando assim;
TOUCIN ..TOUÇA.. SABÃO..SABOA.. TOUCIN..TOUÇA...SABÃO..SABOA
BOTA TOUCIN NA PANELA NÃO DEIXA O FEIJÃO QUEIMAR.
Tamba seguiu seu caminho a cantarolar SABÃO SABOÁ E TOUCIN TOUÇA.
BOTA SABÃO NA PANELA NÃO DEIXA O FEIJÃO QUEIMAR.
Nesse dia eu só queria ficar sozinho, não tava preocupado com caça nem em pescar, se acaso encontrar um abelha de capa assim como enxu capuxu ou inxuí poderia até tirar,.
Foi isso que aconteceu já era tarde achei um enxu dos grandes parecia um pote, queimei umas bostas secas de gado e de jumentos botei debaixo do enxu me afastei e fiquei observando as abelhas se afastarem, depois de uma meia hora não tinha mais nenhuma, cortei o galho do mofumbeiro e trouxe ele inteiro, Tava gordo pesava uns dez quilos de mel.
Não queria ir pra casa deitei no riacho dormi até tarde e novamente sonhei, não com o planeta terra do Eraque mas com um lugar diferente e novamente Tuta estava lá.
Eu era dono de um circo composto por quatro pessoas Tuta era apresentadora eu palhaço e dois malabares.
Tuta vestia uma sainha curta mas com um shortinho por baixo era bem composta.
Ela chamava atenção do público por ser muito bonita e anunciava a entrada do palhaço;
respeitável público com vocês o palhaço jambinho meio sem graça mas sabe cantar,aplauso!!!.
Eu entrava com uma calça de perna curta e outra comprida.
E cantando assim;
BOA NOITE PESSOÁ.
Boa noite!!
Eu vou contar e vocês respondem certo?
Ontocê vamos lá.
Ô LELÊ TIA CHICA....novamente. Ô LELÊ TIA CHICA!!!
silêncio ninguém respondia.
A Tuta respondeu na terceira vez.
Ô LELÊ TIA CHICA? Tuta- ARREMECHE A CANJICA.
Ô LELÊ TIA CHICA....ARREMECHE A CANJICA.
PIPOCA MILHO- Tuta AMEDOIM TORRADO.
Eu-CARREGUEI SUA MÃE NUM CARRIM QUEBRADO.
-Tuta A SUA
Eu - A SUA.
E aquele plateia de no máximo dez pessoas gargalhavam.
AGORA PESSOÁ O ÚLTIMO SUCESSO A CANTAR.
Eu canto e vcs responde.
BINIDITO BACURÁ.- Tuta- TÁ NO OCO DO PAU.
EU- SUA MÃE TOCA NO PIFE.
Tuta- E SEU PAI NO BIRIMBAU.
Isso se repetia até cansar.
Aí Tuta falou pra encerrar o espetáculo agora PESSOÁ COM VOCÊS OS MALABARES SEM MALABARISMO
Acordei com as vaias da plateia.
Vim pra casa trouxe o enxu.
No caminho avistei uma carroça parada com uma mulher um homem é uma criança de no máximo dez anos, na carroça um macaco prego o bicho magro feio me olhou com uma carinha triste e me estendeu a mão como a me pedir algo.
Eu parei estavam na sombra de um pereiro a criança brincava com as cascas da fruta da árvore que parece uma galinha, eu também brincava muito com elas quando era menorzinho.
O homem com um fole pé de bode de oito baixos entoava uma canção triste do Luiz Gonzaga A VOZ DA SECA.
Me olhou e cantando em uma versão própria que dizia assim.
MAS MININO DÁ DE CUMÉ PRA UM VÉIN TOCADOR NÃO VAI TE DEIXÁ MAIS POBI E AJUDA UM BOM SINHÔ.
Peguei o enxu dei pra eles comerem aquele mel, tomaram água parecia que tinha sido um almoço o pobre macaquinho gritava de alegria com as capas de mel nas mãos e oferecendo pra criança, seria cômico se não fosse triste.
Aquele macaco quando chegavam em algum lugar era o sustento da família, o velho tocava o fole a mulher batia pandeiro a criança com um triângulo e o macaco dançando com uma boneca e fazendo outras imitações sob o comando da mulher é do menino.
Seguimos rumo a minha pequena cidade que ainda era distrito de Piancó no sertão paraibano.
Vida de caboclo e assim quase sempre de pior a pior. Ora triste ora alegre, se tiver o que comer não tem tempo ruim.
Eu contei que tinha sonhado com um circo eles até riram o mel tinha tirado eles daquela tristeza da fome.
Dormiram lá em casa esse dia.
Depois de ter comido comigo o peixe que mãe deixou pra me, deu pra nós três. O Chiquinho comeu cuscuz com rapadura.
Mãe até deu um boneca nova pra Chiquinho.
Chiquinho era o nome do macaquinho.
A mulher falou pra ele;
Como se agradece Chiquinho?
O bichinho agachou-se e fez reverência pra mãe.
Foi uma gargalhada só, ele também gritou de alegria.
Pela manhã tomamos café, pai havia chegado cedo, cortou o cabelo e barba do Tonho, foi esse o nome que ele deu, era Tonho Toinha e Tonico a criança.
Quando ele levantou da cadeira o Chiquinho sentou e olhou pra pai como se quisesse cortar o cabelo também.
Agente riu muito, pai pegou a tesoura aparou os cabelos das orelhas ele pegou o rabo e mostrou pra pai, Tava cheio de carrapichos, pai aparou penteou Chiquinho ele pulou no chão e agradeceu com o gesto de reverência, novamente caímos na risada.
Pai nada cobrou também nem sabia se eles podiam pagar, o pagamento foi o show do Chiquinho.
na hora de ir embora, abraçou toda família, nem todo humano tem aquela humanidade do Chiquinho.
Eram pessoas comuns de se encantar no sertão vivem da suas espertezas, na terra do Sol da seca e dos esquecidos viver é uma arte.
No outro dia as risadas continuou dona Adaci mãe de Tamba chegou contando a trapalhada de Tamba, havia botado sabão no feijão e levou o toucinho pra lavar roupas e ainda disse que foi eu que o atrapalhou.
No sertão é assim se tiver o que comer levamos a vida com humor.
Pai sempre falava pra gente;
Meus filhos cara feia é fome, no coração do homem não pode faltar piedade e amor pois fica mal com Deus quem não sabe amar e fica mal com ele quem não sabe dá.
Contos de.
JOÃO DUARTE.
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias