Terça, 11 de Agosto de 2020
83996891484
Cultura Infância

Um Observador nato

Joãozinho registrava tudo o que via

21/07/2020 08h05 Atualizada há 3 semanas
325
Por: Redação Fonte: João Duarte
Um Observador nato

Joãozinho era uma criança de espiritualidade, além de ser um grande observador.


Seus dias eram divididos com seus afazeres, era muito organizado ocupava sempre sua manhã com sua oficina lá debaixo da oiticica, depois de passar por uma situação vexatória criada depois de cantar uma música não apropriada pra criança e ainda ter criado uma obra também imprópria gostava de passar o tempo com seus brinquedos criados por ele, fazia de tudo, sonhando sempre em ganhar dinheiro.

Ainda pequeno sua vida era um colosso, fazia curral de pedra brincava com gado de osso, com borboletas, calangos e besouros e outros bichos e insetos que pudesse encontrar.

Gostava de aboiar, até fazia alguns versos e vinha pro pai mostrar.

Como era analfabeto gravava tudo na mente não esquecia seus versos, nem os que ouvia os vaqueiros e trovadores que havia no seu lugar.

Certo dia tava no Rio banhando com outras crianças, também tava no rio um bando de rapazes que começaram a cantar uma cantiga imora (imoral) não entendeu bem o palavreado, gravou bem as palavras estranhas e entrou em casa a cantar, tinha alguns palavrões mais como ele não conhecia para ele era normal.

Sua prima Cleonice ouvindo sua cantoria raiou com muita bravura e mandou ele se calar.

Ela assustou ele quando falou que pra sua mãe ia contar.

Ele ainda argumentou que ouviu zezim cantar.

Mas mesmo assim sua mãe mandou ele ir na moita de velame pegar um cipó pra apanhar.

Mas mãe velame não! que doí muito e queima.

Argumentou pra sua mãe, ela não o perdoou deu-lhe umas boas lapadas de velame que as pernas e bunda avermelhou.

Isso aí seu abestaiado é pra não cantar cantiga de gente grande.

Mas eu gosto de cantar e como vou saber se é moda que não posso cantar.

Cante o que ouvir seu pai e sua mãe cantar.

Deixou ele de castigo até seu pai chegar.

Foi um tormento trancado no quarto e o que mais lhe aguniava era pensar no que seu pai ia falar.

Quase duas horas depois, seu pai chegou e tomou conhecimento da cantiga imora.

Dele não apanhou, mas também naquele dia tava de castigo não podia sair de casa.

O dia foi comprido pro passarinho cantador aguentar.

Bom a noite chegou tomou banho os couros ainda ardia do pêlo do velame.

Quando o dia amanheceu teve que ouvir a gozação dos irmão, mas por fim tava livre como gostava de ficar, aquela pisa de cipó deixou ele mais cuidadoso com o que podia cantar.

Pegou a baladeira e perguntou: Mãe posso ir pro mato caçar?

Vá, más não pra longe na hora do almoço tem que chegar.

Além da baladeira pegou também uma vara de anzol e saiu.

No caminho da roça na qual havia um poço do riacho ele pensou em pescar.

A poucos metros de casa deu uma pedrada num bentivi, matou o passarinho, depenou, cortou em pequenos pedaços, fêz de iscas e foi pescar.

Naquele tempo era assim as crianças matar passarinho era normal.

Ele era uma fera no anzol, em pouco tempo chegou em casa com quatro trairas grandes, já limpas.

Separou duas e falou: mãe deixa eu dá pra dona Ritinha de seu Aristides.

Sua mãe riu e falou; tá bem pode levar.

Dona Ritinha era uma senhora muito boa, também gostava de lhe agradar, sempre lhe dava um litro de leite, muitas vezes um queijo quando ele ia trabalhar com seu marido o senhor Aristides, puxava boi no arado, era um serviço de coragem e não era qualquer um que encarava um boi muitas vezes, nem tão bem domesticado, bicho forte e muito bravo, mas ele também era valente.

Seu Aristides sempre o elogiava; Joãozinho é um menino bom, trabalhador, corajoso e bem educado.

Nesse dia começava as novenas do sagrado coração de Jesus.

Voltou pra casa correndo tinha se lembrado que a bandinha de pifeiro ia tocar na cidade a noite e ele queria ver o ensaio.

A banda era composta por um pifeiro, um zabumba, um par de pratos e uma caixa.

As vezes Raimundo pifeiro dava uma canja pra algumas crianças pegar no zabumba ou na caixa, quem sabe se hoje não era sua vez de pegar num instrumento da banda.

O almoço foi as trairas que pegou, nesse dia teve arroz, sim arroz.

Ou vocês acham que arroz naquele tempo tinha todo dia?

Tinha não, pelo ao menos na casa da maioria.

No almoço teve salada de alface coisa rara no sertão.

Farofa de cuscuz muito boa.

Seu José Marreca quando vinha cortar o cabelo com seu pai sempre trazia alguma coisa do sítio, nesse dia trouxe alface e um girimum caboclo era uma abóbora muito boa.
muito amigo de seus pais.

Era um negro bonito tinha um sorriso largo, uns dentes lindos, parecido um teclado,
gargalhadas suaves e sem alarde era realmente muito agradável.

No decorrer do almoço foi só elogios pra minha pescaria.

Mas Joãozinho ainda tinha uma tarefa que gostava de fazer todos os dias.

Era ajudar a dona Zefinha dá banho no seu marido cinquenta anos mais velho, ela uma senhora de cinquenta anos e ele com cem anos, ainda lúcidos mas sem habilidade pra cuidar de si.

Seu Humberto era um velho amável, tinha duas filhas ainda jovem, preferia que eu o ajudasse, tinha vergonha das filhas.

Ía ser um dia de correria, ele devoto do sagrado coração de Jesus, tinha feito uma promessa de acompanhar a bandinha durante os treze dias de novenas e ainda assistir cada uma de joelhos, cada dia em casa diferente.

Sua mãe lhe incentivou a pagar sua promessa.

Tinha sido cometido por uma coceira infernal que lhe deixou em carne viva, essa praga havia pegado em muitos do pequeno lugar.

Pois bem, ele havia prometido que curado ia fazer essa penitência. era uma criança de espiritualidade além de seus aboios, sabia rezar Pai Nosso e Ave Maria e até alguns benditos rezados e cantados nas novenas.

Era curioso não perdia um velório, muitas crianças ia pra comer, ele não, ele ia pra cantar incelênça, tinha uma que ele puxava o refrão que dizia assim: "LÁ NO CÉU A MEIA

NOITE É TÃO CLARO COMO O DIA, POIS O SOL REFLETE A LUZ NOS CABELOS DE MARIA, VEM CANTAR MINHA SENHORA INCELÊNÇA NESSE DIA QUE O CÉU TE RECOMPENSA COM ESSE CLARÃO DO DIA.

ESSE SOL QUE TE ILUMINA SÃO AS BÊNÇÃOS DE MARIA."

Os dias foram passando, faltando ainda as três últimas novenas ele já estava com os joelhos inchados, mas aguentava firme no propósito de pagar sua promessa.

Um dia os joelhos doeram tanto que ele conversando com coração de Jesus ele falou;

Pai o senhor me livrou da sarna que até sangrou não vai ser essa dorzinha boba que o senhor não vai curar, fechou os olhos respirou fundo e falou;

Já sei bom Deus, eu prometo que terminando as novenas eu vou até Emas na casa de tia Mariazinha a pé, e vou rezar uma Ave Maria em cada Cruz que no caminho encontrar, em nome do pai do filho e do espirito Santo, amém.

Obrigado pai agora eu vou dormir, bênção mamãe do céu, bênção papai do céu e com voz bem alta quase gritando falou; abença mãe, abença pai, até amanhã...

Ouviu a voz de seus pais lá do quarto lhe abençoá.

Estava rezando sentado na rede, tirou as sandálias dos pés esfregando um no outro batendo três vezes os pés e deitou.

Ele fazia esse ritual de bater os pés todos os dias, dona Terezinha amiga da sua mãe que lhe ensinou, disse a ele que tirava as coisas ruins que por acaso ele pisou, e também era um sinal pro Anjo da Guarda também ir descansar.

Cedinho ainda na rede pensou, meu Deus eu falei que ia na casa da tia mas é longe e se mãe não deixar? Bom aí o senhor vai ter que me perdoar...

Terminou as novenas Joãozinho acertou as contas com seu Deus, que por sorte minha também é o meu.

Ele partiu pra segunda jornada, promessa era promessa tinham que ser pagas.

Sua mãe sabia que a promessa de ir a casa da tia era uma estratégia dele que gostava muito de na tia passear, mas concordou, bem que ainda faltava a concordância do seu pai, mas ele também concordou, com uma ressalva, ele tinha que ir junto queria ver sua irmã também.

Mas pai eu vou ter que rezar uma ave Maria em cada Cruz que passar.

Seu pai falou, vamos por dentro, fora da estrada que só tem duas cruzes.

Pai esse não foi o combinado com Deus ele argumentou.

Seu pai lhe perguntou; você disse pra ele qual caminho ia fazer?

Não, respondeu.

Então pronto Deus não cobra nada de ninguém além do prometido.

E foram mais uma jornada da vida desse moleque tão amável e querido.

Chegaram na casa da tia já era tarde, a caminhada era longa, seis léguas tiranas de sol.

Lá foi aquela alegria, comeram arroz com ovos fritos com toucinho até se fartarem.

A volta ia ser no outro dia era sexta-feira e seu pai tinha que abrir a barbearia.

Joãozinho fica aqui amanhã, só volta semana que vem.

Vai brincar muito esses dias, falou sua amada tia.

Ele ficou muito feliz ia ficar mais de uma semana na casa da tia isso pra ele foi mais uma graça de Deus pra compensar sua coragem e aumentar ainda mais sua fé no sagrado coração de Jesus e sua Mãe Maria...

Ele era meio inquieto tinha sempre uma coisa em mente pra se ocupar.

Seus brinquedos ele mesmo fazia com madeira de pau, pião e imburana de cambão que eram leves e moles pra cortar.

Fazia carrinhos as vezes até vendia alguns, era mestre pra fazer mamolengos pintava de verdes vermelho e azul todas as cores tiradas das plantas e das flores que encontrava nas plantas da caatingas.

Um dia fêz um bonequinho pelado com o Pinto pra cima guardou pra outras crianças mostrar fêz um sucesso danado até vendeu pra Edgar, fêz mais uns quatro ou cinco até a notícia chegar aos ouvidos de sua mãe e outra vez no cipó de velame ele ia entrar.

Justo agora que tava ganhando um dinheirinho ia ter que parar.

Os rapazes que lhe compravam pra fazerem graças na pracinha do lugar.

Ele tava preocupado tinha que prestar contas daquele dinheiro e não sabia como falar, na hora que o cipó lhe queimou as pernas correu pro quarto e pegou o dinheiro que havia escondido e chorando com as canelas queimando, mostrou;

Olha aqui mãe, olha aqui eu não tô mostrando pra ninguém só gente grande que comprou!!

Sua mãe ficou surpresa chamou seu pai e falou; dá um jeito nesse menino eu quero que você veja com seus olhos o dinheiro que ganhou e como ganhou.

Seu pai ficou surpreso com o talento de Joãozinho, lhe comprou um serrotinho, um martelo, dois escopo e falou: de agora em diante vai fazer sua oficina lá debaixo da oiticica e só vai fazer brinquedos, combinado?

Combinado pai. Ele teve que concordar.

A partir desse momento surgiu uma ocupação rentável na vida dessa criança, brincando e fazendo arte de verdade, não mais arte de traquinagens o Joãozinho se firmou,
foi com artesanatos de madeira que Joãozinho ao longos dos tempos sua vida sustentou.

Depois de adulto outras artes ele aprendeu.

Foi carpinteiro, marceneiro, sapateiro e serralheiro foi tantos eiros em sua vida que por fim chegou a dor;

Não aquela dor que doí, foi só mais uma profissão que aprendeu era um grande soldaDOR com suas obras de ferro e solda muita gente ele encantou.

 

Conto de João Duarte

 

PRA QUEM LEU ATÉ O FIM.
VELAME E UM ARBUSTO DE PEQUENO PORTE SEU GALHOS SOLTA UM PÊLO E UMA SEIVA QUE PROVOCA QUEIMADURAS E COCEIRA NA PELE , MAS NADA GRAVE LAVOU SAROU rsrss

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias