Domingo, 09 de Agosto de 2020
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Especiais Valor do Homem

TODO HOMEM TEM SEU VALOR. PARTE ll.

Lembranças de um rapaz sertanejo

14/07/2020 12h32
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Por: Redação Fonte: João Duarte
TODO HOMEM TEM SEU VALOR. PARTE ll.
Mas o senhor falou que ia nos deixar em olho d'água.
 
Eu não, vocês não me perguntaram se eu ia. Agora desçam. Falou com tom ameaçador.
 
Bem. vocês devem imaginar a cara do meu amigo berrando de raiva depois que o o senhor galego dos olhos azuis acelerou o Jeep e partiu.
 
Aquele era o que podíamos chamar de diabo loiro do sertão, me pareceu a maldade em pessoa.
 
Mas tudo bem não podemos esperar fidelidade de todos, principalmente, dele que já tinha nos avaliados. Seu respeito e sua consideração ele guardou pra alguém de maior valor.
 
Quem pensa que no sertão todos são iguais está redondamente enganado, não me surpreendeu pois já o conhecia a longa data.
 
Certa vez meu pai caçando em sua propriedade como era de costume, matou alguns mocó e como não queria voltar pra casa naquele dia, pensou: Vou passar na Bilaia salgo os coalhos e dou algum pra ela.
 
Bilaia era moradora da propriedade, uma cuidadora de tudo, era uma espécie de gerente, sabia de tudo que se passava e prestava conta de tudo ao seu carrancudo patrão.
 
O coalho do mocó é o estômago do animal, você não lava pra salgar, só dá uma sacudida tira o excesso de alimentos, põe bastante sal e deixa no sol pra secar. É um excelente coalho pra fazer queijo e era uma das fontes de renda do meu pai, além da barbearia que só abria -nos dias de sexta-feira e sábado, tomava suas cachaças no domingo e contava suas mentiras, assim como todos os caçadores. Não mentia tanto quanto o nosso patrão o Sr. Ernani Costa , mas desse eu falo lá na frente.
 
Bom, pai ficou o resto do dia com Bilaia cuidou da caça, ela ficou muito feliz pois há dias que meu pai não lhe fazia uma visita, e pra ela que quase não saia era motivo de alegria receber alguém que ela tanto gostava, era realmente amiga de meus pais.
 
Quando pai passava por lá ela sempre mandava um queijo pra minha mãe, escondido do patrão, claro.
 
Nessa semana pai foi muito feliz na caça, matou 4 gatos maracajá não lembro bem quantos tejos, aqui na Paraíba tejo é o mesmo tiú. Sei que eram muitos no mínimo uns 15 a 20.
 
Ele no mato mesmo preparava as peles. Quando assisto a série de TV o DANIEL BONNE. Quando Daniel vinha com seu velho sogro e o Mingo seu amigo índio carregados de pele, lembro o meu velho pai.
 
Preparado suas peles ele passou na Bilaia pra pegar os coalhos. Pois já era quinta feira e antes que a noite chegasse ele já estaria em casa. Pra sua surpresa Bilaia falou:
João, Dudu pegou todos os coalhos e ainda quatro mocó e disse que você caça nas terras dele e nunca uma cascavel matou, agora seus mocós e gato você sempre roubou, eu ainda argumentei que as caças não tem dono são dádivas que Deus deixou, mas ele me olhou severo com a cara de quem não gostou, bem aí você o conhece bem.
 
Na hora que saiu ele falou pra você procurar ele que quer ter uma conversa com o senhor.
 
Meu pai vendo uns oito queijo de manteiga em cima da mesa da cozinha falou:
Bilaia me arruma um saco limpo que vou levar esse queijo aqui, e apontou para um de aproximadamente uns dez kg.
 
A pobre Bilaia era negra mas com certeza seu sangue subiu à face e rubrou. Mas João amanhã ele vem pegar os queijos pra levar pro mercado de patos a pobre Bilaia falou.
 
Meu pai calmo sem demostrar raiva falou: Não se preocupe Bilaia esse daqui eu pago pra ele, todo sábado pela manhã eu faço barba dele, aliás esse fim de semana vai ser barba e cabelo.
 
_ Tá aqui João ainda tem seis mocós quatro ele pegou.
 
Eram 12 coalhos dois mocós Bilaia tinha feito pro almoço na quarta-feira quando lá passou. Arrumado as peles ele botou nas costas e tentou botar o queijo no alforje, mas era muito grande, com seu lençol que sempre o carregou quando ia pro mato, fez um matulão e despediu da bilaia e partiu.
 
Bilaia havia enchido a cabaça d'água gentilmente entregou e falou: _ Vai com Deus João e cuidado quando for acertar as contas com aquele doido. Pai riu e partiu.
 
Já escurecendo, eu ficava ansioso pela sua chegada, a todo instante eu olhava pra ver se o avistava. Quando surge no horizonte aquela silhueta, atrás dele o Sol parecia uma bola de fogo. Meu coração deu um pulo no peito e gritei: _ Lá vem ele mãe, o pai chegou!!
 
Corri ao seu encontro é peguei a cabaça d'água as outras coisas eram muito pesadas..
 
Eu lhe pedi a benção, ele me abençoou e ainda fez um esforço pra se baixar e me beijar, senti aquele cheiro gostoso de malva. Malva e uma erva daninha que tem na caatinga prega na roupa, mas é muito aromática.
 
Caminhamos mais uns trezentos metros e acabamos de chegar, nesse dia não tinha peixe pra limpar, ele havia saído na segunda feira a noite e falado que só ia caçar, precisava comprar umas peças de tecidos pra Amélia costurar alguma roupas pras crianças, e eu todo feliz porque com certeza uma calça curta e uma camisa ia ganhar.
 
Bom, entramos em casa e ele jogou o feixe de peles no chão e todos correram pra lhe abraçar. Mãe já foi logo ordenando. Esmeralda põe a bacia com água lá fora pra seu pai banhar.
 
Eu me apressei pra pegar o sabonete PHEBO era esse que ele usava, pra mãe ele sempre comprava ALMA de FLORES aquele da caixinha azul.
 
Enquanto ele banhava lá fora no terreiro mãe preparava o jantar, hoje nós íamos jantar rubacão com mocó seco frito no toucinho e acompanhado com queijo de coalho assado, pois Bilaia como de costume tinha mandado de presente pra mãe.
 
Nessa noite foi uma alegria só, pois os gatos e os tejos dava pra pai cumprir o prometido e nossas roupas comprar. Pela manhã mãe se apressou a perguntar:
E esse queijo desse tamanho João? Pai lhe contou o que tinha acontecido e mãe lhe corrigiu falou que ele não devia ter feito isso.
 
Pai se dirigindo a sala começou falar...tá vendo essa peles aqui?
_ Vê se nelas tem um ferro de alguém? Como tem na pele de uma criação.
_ Não, não tem.
_ E com que lógica ele vem falar que eu roubei seus gatos e seus tejos.
 
Amanhã com certeza ele vem me procurar. Então, acertamos as contas, se eu o dever vou lhe pagar, se não é ele que vai me pagar.
 
No sábado vinha mais dois barbeiro trabalhar, seu Nôzinho e Genival Feitosa esse morava no sítio, seu Nôzinho em Catingueira, cidadezinha vizinha.
 
Como era de costume mãe sempre preparava um bom prato de carne e eu levava, era o almoço de meu pai ou o tira gosto como ele chamava.
 
Ele sempre bebia enquanto trabalhava, pra cada cliente era uma bicada de cachaça se fosse cabelo e barba eram duas, nunca cortou ninguém é nem tão pouco seus fregueses se incomodavam.
 
Quando eu cheguei com a carne por volta de dez horas com certeza umas dez já tinha tomado. Ele fazia a barba de seu Josias Rufino um machante e dono de engenho do lugar. (Machante é a pessoa que mata gado e traz pra feira vender).
 
Ernani Costa sentado aguardando sua vez, seu Josias levantou seu Ernani sentou. Pai lhe passou espuma na cara, pegou a bacia de carne e falou: espere um pouco compadre Ernani que vou tomar uma bicada, Ernani nem se incomodou, aquele ritual pra ele era normal.
 
A bodega de Severino Chaves era ao lado, quando pai voltou, o dito cujo fazendeiro, patrão da Bilaia chegou, logo perguntou: tem alguém na frente João? Pai respondeu, Não.
 
_ Hoje eu quero sair daqui ainda mais bonito que sou.
 
Pai respondeu: aqui até Mané Tolentino sai bonito, não somos só barbeiro, fazemos milagres também. Os risos ecoou com o que meu pai falou.
 
Passado a graça da piada ele falou: _ E o queijo João tava bom?
 
Pai: _ como sempre Bilaia é a melhor queijeira que o sertão criou.
 
Pois então, você vai me pagar com cortes de cabelo?
_ Tudo bem, pai falou. Temos só que descontar os coalhos que vc pegou.
_ Mas os mocós eram meus que você matou.
_ Pera aí vê a besteira que você falou.
 
Se dirigindo ao senhor Ernani e o velho João Tiburtino proprietário de terras pai peguntou:
_ Compadre Ernani e João Tiburtino, quantos gatos e tejos tem em suas propriedades e quantos vocês marcaram com seu ferro?
 
Foi um silêncio, mas por fim João Tiburtino falou:
_ Fico feliz em saber que em minhas terras andou, quantas cascavel matou, quantas reses tu me salvou, sem ter gatos e tejos em minhas terras. Não são meus, são criaturas de Deus, que com certeza mandou pra alguém que não tem nada ou pra algum caçador.
 
Ernani olhou pra ele com serenidade falou:
_ Faça me um favor viola, seja justo por favor, nenhum juiz nesse mundo vai tirar de quem não tem e nem lhe obrigar a te devolver nada se nada de ti ele pegou.
 
O cidadão ficou mudo simplesmente ele falou:
_ Tu és mesmo muito esperto João, esses dois advogados desta vez quem te salvaram..
 
Bem, onde que estava mesmo antes de falar desse senhor?
 
Há lembrei eu tinha descido do Jeep estava no triângulo que dava acesso a minha cidadezinha, eu vou dormir um pouquinho amanhã eu continuo.
 
Texto de João Duarte
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