Domingo, 05 de Julho de 2020
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Especiais Lembrança

MINHA CASA

UMA DOCE LEMBRANÇA

11/04/2020 00h00 Atualizada há 3 meses
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Por: Redação Fonte: Sanxer Estrela
Sanxer Estrela
Sanxer Estrela

Assim que cheguei à cidade logo avistei a velha casa de frontão alto e amarelado.

Aproximei-me e como numa miragem vi Cabo Estrela na calçada a conversar. De farda caqui, pernas cruzadas sobre o tamborete e um monte de gente em volta a ouvir seus causos mirabolantes.

Pela porta entreaberta da sala, eu vi o piso em cimentado bem liso, lembrei-me do esforço que mamãe fazia para mantê-lo limpo e bem encerado. 

Fechei os olhos respirei bem fundo, fui me conectando a uma lembrança que eu nem sabia que ainda carregava comigo.

Daí vi as seis pesadas cadeiras emparelhadas aos cantos da sala, harmonizadas com um velho móvel de duas portas e uma pequena gaveta, cujo conteúdo, antes nos parecia intocável. 

O rádio sobre o velho móvel fora a grande fonte de entretenimento da casa, uma dança improvisada ao som de um cadenciado baião, muitas vezes fora interrompida pelas crianças agarrada às pernas do casal, num choro de Ciúmes.

As cortinas esvoaçantes coloridas, que separavam a sala do quarto do meu pai parecia agora me soprar os cabelos, trazendo o cheiro dos bolinhos de milho que a negra Maçu preparava para o lanche da tarde. Passei as cortinas esvoaçantes e pelo corredor estreito cheguei a  sala grande, alumiada apenas pelas réstias vindas das frestas do telhado, na parede, a ceia larga, treze testemunhas do sacrifício que dona lia fazia para dividir a comida entre tantas bocas. A petisqueira, a mesa grande de angico trabalhado, no quarto ao lado, as malas grandes nos cantos de parede estufavam fundos de redes e punhos retorcidos na urgência do adormecer e acordar de tantos meninos, os cochichos, as histórias de trancoso  e assombração, o medo do imaginário na  doma de um menino de poucos limites.

Aquilo já não me parecia uma lembrança de um saudosista, nem o sentimento de um homem que ganhou idade e  buscava um reencontro, era na verdade, uma viajem ao passado, que me recebia de braços abertos.

Mas,  e a casa?..  Há muito tempo não é mais nossa! O cimentado não tem mais paradeiro. As cortinas coloridas ali não voam mais, mas os princípios e as lembranças, estes, ainda carrego comigo...  

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